Poema sem título - Paulo Leminski

eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus

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Do amoroso esquecimento - Mário Quintana

Eu, agora, - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

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Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade

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Emergência

Quem faz uma poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo - para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Mário Quintana

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Grupo Distraídos Venceremos realiza interface entre literatura e teatro



O grupo Distraídos Venceremos se apresenta no auditório do Centro Cultural Dragão do Mar, no próximo sábado (02), às 19 horas, a fim de difundir a literatura, por meio de leituras expressivas, que realcem o sabor dos textos, em diferentes matizes. A entrada é gratuita.
Fazendo uma interface entre literatura e teatro, o grupo parte da ideia de que quando o texto está posto pelo autor, já não pertence mais a ele, mas a quem o lê ou interpreta. Os textos são recitados num tom, ora intimista, ora coloquial, como uma conversa entre o leitor e o público, tornando-os mais verossímeis e próximos do público, de modo que cada pessoa sinta que o leitor está falando diretamente para ela.
Os integrantes do Distraídos Venceremos são alunos do Curso de Direito da Faculdade Christus, orientados pela professora Fayga Bedê, que manteve a abordagem de seu antigo grupo, o Palavra Líquida, ao selecionar os textos, montando apresentações com um repertório eclético, que vai de Paulo Leminski, Nelson Rodrigues, Ana Cristina César e Clarice Lispector, a Bukowski, Maiakóvski e Brecht, entre vários outros escritores da literatura nacional e internacional. A apresentação do grupo no Centro Cultural Dragão do Mar é o resultado de uma temporada de leituras para os deficientes visuais, na Associação dos Cegos do Estado do Ceará – ACEC.
O nome do grupo “Distraídos Venceremos” é uma homenagem ao livro homônimo de Paulo Leminski. Sua escolha deriva do modo despretensioso e informal como os textos são lidos, mas também do objetivo institucional de infundir em seus próprios alunos, como no público em geral, o amor pela literatura: enquanto estão todos ali, distraídos, entre ler e ouvir, a mágica acontece. E mais uma geração de leitores estará sendo formada

Distraídos Venceremos: Recital de Leitura Dramática
Local: Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Data: 02/07
Horário: 19 Horas
Entrada: Gratuita

Assessoria: Júlia Norões – julianoroes@gmail.com



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ERRO DE PORTUGUÊS

Oswald de Andrade



Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido o português





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Para viver um grande amor - (Vinícius de Moraes)




Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

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