Cortar o tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo Genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.



Nada melhor do que começar o ano com o grande Carlos Drummond de Andrade.

Feliz 2012 para todos!

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Alberto Caeiro é considerado o mestre de todos os heterônimos de Fernando Pessoa.

    Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
    Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.

    Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
    Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
    Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
    O resto é uma espécie de sono que temos,
    Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

    Alberto Caeiro, 1-10-1917

(Fernando Pessoa)

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O último poema


Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
(Manuel Bandeira)

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Spes Única!




                 Quintino Cunha


Morto, dentro da fria sepultura,
Sem te poder falar?
E tu que me amas, boa criatura,
Indo me visitar...

Banhada de suspiros, de soluços,
Desmaiada, talvez...
Muita vez reclinada, até de bruços,
Na altura dos meus pés;

Pedindo a Deus o meu viver eterno
Junto das glórias suas;
Que me livre das penas do inferno...
E a chorar continuas,

Lembrando nossa vida, a todo instante,
Repassada de dor...
A lembrar-te que fui o teu amante
- O teu único amor!

Mal pensando na horrífica caveira,
Em que me transformei,
Exausto de fadiga, de canseira,
Imaginar não sei...

Para evitar essa hora amargurada,
Esse quadro de dor tão verdadeiro,
Deus há de ser servido, minha amada,
Que tu morras primeiro!...





NOTA: Vale a pena ler sobre Quintino Cunha, é um mundo de informações, principalmente para nós que seremos advogados um dia, sugiro que conhecemos além do bairro. rs. 
                 

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SONETO DO AMOR TOTAL - Vinícius de Moraes


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.





Graças ao grupo de estudo me apaixonei por Vinícius, apaixonado e intenso, do jeito que eu sou.

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DESENCANTO - Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento, de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto

Meu verso é sangue, volúpia ardente
Tristeza esparsa, remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota a gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.

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Eu deveria estar respeitando a nossa ordem de postagem, mas eu sou o número 16 e acho que vocês vão me perdoar se eu fizer uma postagemzinha né, o blog não nasceu para ser nenhuma ditadura.. ;P Mas para passar inspiração, dividir nossas descobertas, ...

Quero só colocar uma dessas coisas que toca a gente... senti isso, essa semana, com essa música/poesia:

Tempo Perdido

(Legião Urbana)


Todos os dias quando acordo,

Não tenho mais o tempo que passou

Mas tenho muito tempo

Temos todo o tempo do mundo.


Todos os dias antes de dormir,

Lembro e esqueço como foi o dia

"Sempre em frente,

Não temos tempo a perder".


Nosso suor sagrado

É bem mais belo que esse sangue amargo

E tão sério

E selvagem,

selvagem;

selvagem.


Veja o sol dessa manhã tão cinza

A tempestade que chega é da cor dos teus

Olhos castanhos

Então me abraça forte

E diz mais uma vez

Que já estamos distantes de tudo

Temos nosso próprio tempo,

Temos nosso próprio tempo,

Temos nosso próprio tempo.


Não tenho medo do escuro,

Mas deixe as luzes acesas agora,

O que foi escondido é o que se escondeu,

E o que foi prometido,

Ninguém prometeu.


Nem foi tempo perdido;

Somos tão jovens,

tão jovens,

tão jovens.

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(Júbilo Memória Noviciado da Paixão(1974) - Poemas aos Homens do nosso Tempo - II)


Amada vida, minha morte demora.

Dizer que coisa ao homem,

Propor que viagem? Reis, ministros

E todos vós, políticos,

Que palavra além de ouro e treva

Fica em vossos ouvidos?

Além de vossa RAPACIDADE

O que sabeis

Da alma dos homens?

Ouro, conquista, lucro, logro

E os nossos ossos

E o sangue das gentes

E a vida dos homens

Entre os vossos dentes.





Hilda Hilst

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Lílitchka! (Em Lugar de Uma Carta)- Maiakovisk


Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto — um capítulo do inferno de “Krutichôniqui”. Recorda — atrás desta janela pela primeira vez apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas, no coração — aço.
Um dia maise me expulsarás,
talvez com zanga.No teu hall escuro longamente o braço,trêmulo, se recusa a entrar na manga. Sairei correndo,lançarei meu corpo à rua.Transtornado,tornado
louco pelo desespero.
Não o consistas,meu amor, meu bem, digamos até logo agora.
De qualquer forma o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalhoele se vai e se deita na água fria. Afora o teu amor para mim não há mar, e a dor de teu

amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso ele jaz como um rei na areia ardente. Afora o teu amor para mim não há sol, e eu não sei ondes estás e com quem. Se ela assim torturasse um poeta, ele trocaria a sua amada por dinheiro e glória,mas a mim nenhum som me importa afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno, e não poderei apertar na têmpora o gatilho. Afora o teu olhar nenhuma lâmina me atrai mais com seu brilho. Amanhã esquecerás que eu te pus num pedestal, que incendiei de amor uma alma livre, e os dias vãos — rodopiante carnaval — dispersarão as folhas de meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar, respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

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Número #20


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.



Agora na voz do autor:


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